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REFLETINDO PARA EDUCAR

ALFABETIZAÇÃO PRECOCE DIVIDE ESPECIALISTAS

Em parte por pressão dos pais, escolas antecipam leitura e escrita

Autoria: Luísa Alcalde 


Aprender a ler e escrever já na primeira infância garantirá adultos mais capazes e bem-sucedidos? A alfabetização precoce, dúvida que tira o sono de muitos pais, ganha cada vez mais adeptos nas escolas infantis da capital. A tendência não agrada a boa parte dos especialistas, que dizem que criança tem de ser criança. Outros, porém, defendem a antecipação.

"Pesquisas mostram que as escolas infantis são para aprender diferentes tipos de linguagem. A escrita não deve ser prioridade", diz Maria Letícia Nascimento, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e do Fórum Paulista de Educação Infantil.

Segundo especialistas, a corrida para saber ler e escrever foi impulsionada com a recente aprovação da lei, que aumentou a duração do ensino fundamental de 8 para 9 anos, transformando o último ano da educação infantil (antiga pré-escola) no primeiro do fundamental. Para que seus alunos não chegassem a essa etapa despreparados, colégios particulares anteciparam o início da alfabetização para os 3 anos.

A motivação, em geral, vem da ansiedade dos pais. "Muitos acreditam que o filho tem de ser o melhor. Por isso esperam que tenham o conhecimento antecipado", observa Maria Letícia. Mas, segundo ela, não é colocando o filho em uma escola que ensina alemão no 1º ano de vida que os pais vão garantir que a criança seja um adulto melhor. "O importante é que nessas escolas ela viva bem a infância."

Daniel Cara, da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, diz que, como política de inclusão de crianças fora de escolas, a mudança foi importante. "Mas o impacto pedagógico e os efeitos que poderiam vir a ocorrer foram pouco discutidos", afirma. É consenso que a criança, segundo ele, está sendo pressionada a terminar o 1º ano do ensino fundamental com 6 anos já lendo e escrevendo. Maria Regina Maluf, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), discorda. "Já ficou demonstrado que não é cedo alfabetizar aos 6 anos ou até antes." Para ela, a questão está mal colocada. "Aprender é sempre bom, porque vivemos em uma cultura letrada."

Maria Malta Campos, da PUC e da Fundação Carlos Chagas, concorda. "A criança tem interesse pelas letras", diz. "Algumas aprendem sozinhas, outras demoram mais. O que é fundamental é que escolas levem em conta essas diferenças sem pressioná-las." A pais insones, ela responde a questão lançada no início da reportagem: "Não se preocupe se o coleguinha já está lendo e o seu filho, não. No tempo dele essa habilidade será desenvolvida. Não é escrevendo cedo que ele será um adulto mais feliz."

Rodrigo Cunha, de 4 anos, que frequenta uma escola particular na Vila Clementino, escreve o nome desde os 3 anos. Ele brinca com lápis, caneta e papel. Copiar letras é uma de suas diversões preferidas. Neste ano, ele está sendo apresentado à matemática e escrita.

 Artigo publicado na Estadão de S. Paulo.


 
 

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